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Mais terra e menos água?

Há uns dias, ao ler notícias no site da BBC, dei-me conta de uma que me chamou claramente a atenção: que há mudanças na forma como a água à superfície da Terra se distribui. Dito desta forma, não me impressiona. As mudanças sempre existiram, e sempre existirão!

Ao ler a motícia, fiquei ainda mais surpreendido com a principal surpresa dos cientistas: que a linha de costa tinha ganho mais superfície de que a perdida, apesar da proclamada subida do nível médio dos mares! A notícia tem mais itens interessantes, mas de um cariz já habitual, de sensacionalismo científico. Mas tinha um link!

O instituto holandês Deltares desenvolveu uma ferramenta que permite observar essas alterações. O Deltares Aqua Monitor mostra os locais de água do planeta transformados em terra, e vice-versa, entre 1985 e 2015. A resolução das imagens, baseada no motor do Google Earth, permitem ver essas alterações com uma resolução de 30 metros.

A ferramenta é deveras notável, e cuscar vários sítios do planeta é inevitável! Serve para apreender o que tem sido a acção do Homem neste aspecto, mas também para validar os dados. Por isso, dediquei também tempo a Portugal (ver mapa abaixo). Aparecem naturalmente as grandes barragens, donde sobressai naturalmente o Alqueva. Mas doutras, nem sinal, como é o caso da barragem do Alto Lindoso. Mas ainda mais interessante, foi seguir a linha de costa, onde a subida do mar deveria estar a “engolir” parte da nossa costa. Uma contabilidade rápida, envolvendo os locais de maior variação, dá origem ao seguinte:

Locais onde terra conquistou mar (a verde no mapa):

  • Barra de Caminha
  • Porto de Viana do Castelo
  • Praia da Pedra Alta – Viana do Castelo
  • Porto de Leixões
  • Foz do Douro
  • Praia da Aguda
  • Praias de Espinho
  • Praia de Esmoriz
  • Praia do Muranzel
  • Praia de São Jacinto
  • Praia da Tocha
  • Praia da Figueira da Foz
  • Praia da Nazaré
  • Marina de Cascais
  • Marina de Oeiras
  • Praia da Trafaria
  • Praias da Caparica (norte)
  • Praia de Troia
  • Porto de Sines
  • Praias de Lagos
  • Praia da Rocha
  • Praia de Albufeira
  • Praias de Vilamoura e Quarteira
  • Ilha da Barreta – Faro
  • Ilha da Culatra (nordeste)
  • Praia da Armona
  • Praia da Barra da Fuseta
  • Praia da Ilha de Tavira
  • Praia do Lacém – Cabanas
  • Praia da Alagoa
  • Praia Verde
  • Praia de Monte Gordo
  • Foz do Guadiana

Locais onde mar conquistou terra (a azul no mapa):

  • Praia de Antas – Foz do Neiva
  • Praia de Rio de Moinhos – Esposende
  • Praia de Ofir
  • Praia de Cortegaça
  • Praia de São Pedro de Maceda
  • Praia das Dunas de Ovar
  • Praia do Furadouro
  • Praia de Torrão do Lameiro
  • Praia do Areão (sul)
  • Praia do Poço da Cruz (sul)
  • Praia de Mira (sul)
  • Praia da Cova Gala (sul)
  • Docas de Peniche
  • Praia da Culatra (sudoeste)
  • Praia da Fuseta
  • Praia de Cacela Velha

A contabilidade é surpreendente! Embora muitos dos locais conquistados ao mar sejam de origem humana, muitos outros não o são. O efeito dos molhes é surpreendente, corroborando aquilo que é também medido no terreno, como se pode ver no exemplo da Figureira da Foz. Outra situação surpreendente para mim foi a da Praia da Rocha, muito mais artificial do que o que eu pensava. Procurei confirmar o que julgava serem outras surpresas na lista, mas todas as que averiguei, confirmam-se. Tudo isto dá muita credibilidade a esta ferramenta, que está publicamente disponível…

Mais e menos água em Portugal (1985-2015)

Mais e menos água em Portugal (1985-2015)

Previsões furadas nos sacos de plástico

Não era difícil prever o que aconteceria com a introdução da Fiscalidade Verde, na vertente específica dos sacos de plástico. Da minha parte, não contribuí um cêntimo que fosse para o peditório.

Todos tivemos que procurar outras alternativas. Os sacos de lixo de plástico eram bem mais baratos, mas eu optei por uma solução mais económica: a dos sacos de plástico da fruta! Contra este aumento de impostos fundamentalista, os Portugueses responderam com uma monumental finta! A receita foi de apenas 3.75% do prevista, e a receita prevista para este ano vai ser de 0.5% da receita prevista para 2015!!! Quem riu no final foram os fabricantes de sacos de lixo, que aumentaram muito significativamente as vendas!

O infeliz ex-Ministro Jorge Moreira da Silva ainda tentou justificar o injustificável num post no Facebook, mas os seus argumentos sabemos há muito que são falsos! A mim apetece-me rebolar pelo chão a rir, tal é a estupidez de algumas personagens que passam pelo nosso Governo…

Menos Velocidade, mais Poluição?

A ideia que todos temos interiorizada é que o consumo de combustível de um automóvel aumenta, com o aumento da velocidade. E com o aumento do consumo de combustível, aumenta naturalmente a poluição. Na proposta da Câmara para a Segunda Circular, é por isso assumido que a redução do limite de velocidade máxima de circulação contribuiria para uma redução dos impactes ambientais.

Por outro lado, é nos dito que para minimizar o consumo, é necessário engrenar a velocidade mais elevada, e conduzir nessa engrenagem sem deixar o carro ir abaixo. Acontece que na maioria dos carros, não se consegue fazer isso com um limite de 60 Km/h. Eu no meu não consigo…

A verdade é que a eficiência de um motor vai melhorando à medida que vamos inicialmente subindo a velocidade. Tal é verdade no arranque inicial, e tal mantém-se até determinada velocidade. Mas, a partir dessa velocidade, a potência necessária para o veículo se mover a uma velocidade superior aumenta mais que a melhoria de eficiência no motor, pelo que o consumo voltará a subir.

O ponto em que se verifica a inflexão de consumos é dependente das várias marcas/modelos, mas também de um conjunto diverso de factores variáveis, conforme temos referido em múltiplos artigos do Poupar Melhor. A melhor compilação que conheço no domínio desta área é a dada pelo documento “Transportation Energy Data Book”, que na sua página 126 tem o seguinte gráfico:

Consumo vs. velocidade, ao longo das últimas décadas

Consumo vs. velocidade, ao longo das últimas décadas (atenção às medidas imperiais)

Os dados deste gráfico evidenciam que actualmente os automóveis estarão próximos do seu melhor consumo quando circularem a quase 100 Km/h. E isto para os automóveis americanos, que sabemos não são tão eficientes como os europeus, que tipicamente utilizamos em Portugal. Esse valor está também de acordo os melhores consumos que consigo no meu automóvel. Notem ainda como as velocidades onde os automóveis têm os seus melhores consumos, tem vindo a subir nas últimas décadas. Tal não é obviamente surpreendente dadas as melhorias em termos de motorizações, mas também de aerodinâmica.

Os valores que a literatura consagra como óptimos, na zona dos 80 Km/h, não são válidos para todos os automóveis. Os mais recentes de uma forma geral ficam acima, mas com a notável excepção dos carros híbridos e eléctricos. Nestes, a velocidade óptima é genericamente bastante inferior, mas também não contam significativamente para o aumento das emissões de gases poluentes.

Assim sendo, o que a proposta da Câmara vai conseguir, ao reduzir a velocidade máxima da Segunda Circular, de 80 Km/h para 60 Km/h, é aumentar a poluição, o contrário obviamente do que é desejável!

Árvores e Poluição

No âmbito da Consulta Pública sobre a Segunda Circular que a Câmara de Lisboa está a promover, muito se tem falado sobre a importância das árvores que se pretendem plantar. Francisco Ferreia, ex-Presidente da Quercus, pôs o dedo na ferida ao referir que as árvores “não tem um papel relevante quer na melhoria da qualidade do ar quer no ruído.

Acontece que há uns meses um amigo me enviara um artigo muito interessante do Gizmodo, na sequência deste artigo sobre árvores e temperatura. O artigo aborda várias dimensões na interacção entre as árvores e a poluição, em ambiente citadino.

Um dos primeiros tem a ver com a perceção, a componente “psicológica”, como referiu Francisco Ferreira. Neste artigo da Scientific Reports, efectuado no Canadá, a existência de 10 árvores adicionais num quarteirão equivalia a um aumento de ordenado significativo ou a um sentir-se sete anos mais novo! Os investigadores avançaram com a hipótese de que tal perceção resultaria de as árvores reduzirem a poluição do ar.

O problema, de acordo com o autor do artigo do Gizmodo, é que determinados obstáculos numa cidade podem contribuir para que a poluição não seja transportada na direcção “correcta”. O principal problema pode resultar do facto de as árvores evitarem a dispersão da poluição, concentrando-a nomeadamente sob a copa, impactando significativamente nos níveis de poluição a nível local. Um exemplo marcante é o aumento da poluição que se verificou em 2015 na Avenida da Liberdade, uma artéria caracterizada por um conjunto abundante de árvores…

O autor chama a atenção para outra dimensão muito importante! O pior das emissões nada tem a ver com o dióxido de carbono, que é a molécula que as árvores adoram, quando fazem a fotossíntese. O problema reside sobretudo nos óxidos de Azoto (NOx) e as partículas. Neste domínio, o impacto das árvores não é claro.

O problema é que a existência de árvores ao longo de uma via rodoviária, nomeadamente como é o caso da Segunda Circular, contribui para o aumento da concentração de poluição, ao invés de melhorar a qualidade do ar, pelo menos ao nível local. Os autores do estudo explicam que a existência de árvores reduz a ventilação desses locais, que contribuem para a diluição da poluição emitida pelo trânsito!

O problema das árvores na Segunda Circular, da forma que a Câmara propõe, pode realmente ser muito grande. Estudos sugerem que tal pode contribuir para um aumento das temperaturas especialmente no Verão e por alturas de vagas de calor. O estudo anterior chama ainda a atenção para a redução da velocidade média do vento em 30% no Verão em Lisboa, abaixo dos 100 m de altura, fruto da ” forte expansão urbana para Norte da segunda circular:

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Redução da velocidade do vento em Lisboa no Verão (in “Orientações Climáticas para o Ordenamento em Lisboa“)

Sendo o vento na cidade claramente proveniente de Norte, ocorre-se-me que a plantação de árvores ao longo da Segunda Circular vai criar uma barreira adicional e significativa ao vento norte. Não só a poluição vai aumentar na Segunda Circular, como vão aumentar as temperaturas no Verão em Lisboa, aumentar o efeito ilha de calor, e a cidade passar a viver mais miseravelmente!

Poluição ou Clima?

Temos sido inundados nos últimos dias sobre a Conferência do Clima em Paris. Fala-se muito do futuro, daqui a não sei quantos anos. Infelizmente, não se fala do que se passa agora!

Ontem, em Pequim, foi emitido, pela primeira vez, um alerta vermelho sobre a poluição. Depois de vários episódios anteriores menos graves. Os níveis de poluição dados em tempo real pelo Twitter da Embaixada Americana, são de bradar aos céus! Nas outras cidades chinesas, algumas são ainda piores! O exemplo da monitorização da China inspirou medições noutros locais extremamente poluídos do planeta.

Obviamente, há aqui muito mais em jogo que o futuro do Planeta! As emissões na China, que estão a galopar, estão obviamente correlacionadas com o progresso que os Chineses estão a experimentar. Tal está eloquentemente referenciado neste documento, que analisa a situação do ponto de vista também político.

A questão é relativamente simples: o protocolo de Kyoto obrigou os países desenvolvidos a diminuírem as suas emissões. O problema é que as emissões subiram desde então, sobretudo pelos países subdesenvolvidos, especialmente a China e a Índia, que foram “esquecidas”. Só a China queima mais carvão neste momento que todo o resto do Mundo combinado!

Como as conclusões do documento acima referem, há uma contradição entre o que a China (e a Índia, e resto dos países subdesenvolvidos) precisam e que os países do Ocidente querem. Se nós queremos menos emissões de CO2, então não somos nós que temos que reduzir, mas sim a China e a Índia. Se eles querem ter um ar mais respirável, não precisam de baixar as emissões de CO2, mas sim as das partículas, NOx e SOx. E o que o Ocidente tem que fazer é dar-lhes formas eficientes de produção de energia, porque senão eles continuam a queimar carvão, que é a forma mais rápida e barata de produzir energia para eles…

A estupidez da taxa dos sacos plásticos

Temos dado muitas referências aqui à taxa sobre os sacos de plástico. Enumeramos as alternativas. Propusemos uma alternativa ainda melhor! Obviamente, os Portugueses não são burros, e fintamos colectivamente o Ministro do fundamentalismo ambiental. Enfim, a alta dos outros sacos de plástico era mais que esperada, porque ainda há quem tenha memória neste País.

Sem surpresas, o Público publicou ontem uma notícia que confirma o desastre da taxa dos sacos de plástico. O que diz é confrangedor, até porque não foi a pensar no Ambiente que se fez a taxa, como manifestamente se verifica pela última citação abaixo. Vendeu-se uma coisa “verde”, mas que na verdade dá origem a mais plástico, de “melhor” qualidade, ie. que se degrada menos, menos empregos, e até aposto que menos receita para o Estado (IVAs, IRSs, gastos em desemprego dos despedidos, etc.). Cúmulo do cúmulo, gasta-se mais água, detergente e coisas que tal a lavar os “lixiviados”! Mas não é preciso contextualizar. É só ler as frases do artigo para constatar a verdade nua e crua:

  • O consumo de sacos de lixo em Portugal aumentou mais de 40% desde que entrou em vigor a taxa sobre os sacos de plástico dos supermercados, em Fevereiro.
  • Oito meses após a introdução da taxa de dez cêntimos, o Ministério do Ambiente ainda não tem números sobre a sua aplicação.
  • há efeitos colaterais – incluindo quebra de receitas e despedimentos na indústria.
  • “Verifica-se uma grande redução dos sacos de plástico dos supermercados. O que aparece agora são sacos de maior volume, pretos”, afirma Susana Ramalho, directora executiva da Resialentejo
  • Os cidadãos que antes utilizavam os recipientes gratuitos dos supermercados para levar garrafas, papéis e embalagens para o ecoponto agora compram sacos novos para este fim.
  • O mesmo está a acontecer no contentor do lixo normal: os sacos tradicionalmente pretos estão a ocupar o lugar dos de supermercado.
  • os cidadãos estão a despejar o lixo directamente para o contentor, sem saco nenhum, aumentando o problema das escorrências. “Há muito lixiviado. As próprias viaturas de recolha ficam mais sujas”, afirma Cristiana Santos, coordenadora da área técnica da Tratolixo
  • “As entidades [que fazem a recolha] reportam um agravamento nos custos com as lavagens”, completa.
  • Mas a consequente redução do consumo de petróleo – de que os plásticos são feitos – será minorada pela maior utilização de sacos de lixo.
  • Há outros efeitos colaterais da taxa. Apenas os sacos de supermercado têm o “ponto verde”, ou seja, a sua reciclagem é financiada pela indústria. Os sacos de lixo não o têm, porque são considerados um produto, e não uma embalagem.
  • Os efeitos benéficos da taxa sobre os sacos leves serão provavelmente diluídos pelo aumento da produção de lixo em Portugal.
  • A Comissão para a Reforma da Fiscalidade Verde, que propôs a taxa, não se preocupou com a questão dos sacos de lixo. “É uma análise ambiental, nós fizemos a análise económica”, diz Jorge Vasconcelos, que presidiu à comissão.