Fiscalidade Verde, segundo Mira Amaral

No passado Sábado, ouvi o início do “Negócios e Empresas” da TSF. O entrevistado era o Mira Amaral, o presidente do Banco BIC. A entrevista, que pode ser ouvida no site da TSF, pode também ser lida no site do Dinheiro Vivo. Já aqui tínhamos falado dos desencontros entre o ministro e o setor que tutela.

O que mais me surpreendeu na entrevista foi o posicionamento de Mira Amaral perante a política energética e ambiental do Governo. Em particular sobre a Fiscalidade Verde. Mais parecia uma entrevista a alguém do PCP ou do Bloco de Esquerda, tal o teor das suas declarações. Note-se a utilização de termos como “quixotesco”, “fundamentalismo”, “sacar”, “talibãs”, entre outros:

  • É perfeitamente quixotesco que sejamos nós, em Portugal, com uma economia que esteve quase em falência, em que foram as empresas que conseguiram salvar isto, acabando com o défice externo, a avançar. É perfeitamente contraditório e incoerente, totalmente idealista e de falta de senso ir arranjar uma taxa de carbono que vai penalizar as empresas.
  • Acredito muito mais no meu amigo Eng.º Ferreira de Oliveira, que é engenheiro e especialista em petróleos, do que no ministro Moreira da Silva, que nunca trabalhou em energia. Ele não sabe nada de energia, não tem política energética, está atrelado ao fundamentalismo ambiental. A questão de fundo não é se são sete ou cinco cêntimos por litro. A questão de fundo é esta: nós poluímos muito pouco, não somos nós que vamos resolver o problema global e avançamos com esta taxa num contexto em que há apenas seis países na União Europeia que a têm.
  • Qual é a sorte que o governo pode ter neste momento? É que, como o preço do petróleo está a descer, o meu amigo poderá dizer que o preço dos combustíveis desce e que este aumentozinho não tem grande efeito. Mas tem porque lá fora o preço também desce. Temos é de ver o nosso diferencial de preço em relação aos outros países, sejam cinco ou sete cêntimos por litro. Há empresas que estão aflitas e o mais pequeno custo adicional pode levá-las à falência.
  • De uma maneira irónica, podia dizer que é aproveitar o fundamentalismo do ministro Moreira da Silva para sacar mais algum aos contribuintes. À pala do termo fiscalidade verde, que é simpático – as pessoas gostam do verde -, saca-se mais algum.
  • O fundamentalismo ecológico e ambiental do ministro Moreira da Silva foi aproveitado, inteligentemente, pelo primeiro-ministro e pela ministra das Finanças para sacarem mais algum.
  • Seria do mais elementar bom senso que nesta fase, ainda muito difícil da economia, evitassem honorar as empresas com uma taxa destas. Não posso aceitar acriticamente este discurso de talibãs verdes, que taxam em nome de uma coisa que a meu ver não está cientificamente provada.

O resto da entrevista é o desmanchar completo de muitas ideias que andam por aí, não só do Governo. E note-se que Mira Amaral é uma pessoa da área do PSD, pelo que insuspeita nos comentários que avança.

A entrevista tem também, para mim, a grande vantagem de pôr os pontos nos i’s de várias personagens da política portuguesa, para além do Ministro do Ambiente, Jorge Moreira da Silva. Em particular, as análises relativas a Paulo Portas e a António Costa… Aliás, as dúvidas existenciais que Mira Amaral levanta em relação à posição de voto nas próximas eleições legislativas são muito semelhantes às minhas. Mas isso já é outra conversa…

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  1. É bem sabido que Mira Amaral detesta tudo quanto é verde e ambiente. Mas detesta especialmente que os seus interesses particulares sejam postos em causa. Por isso a sua opinião não é grande referência.

  2. Estava para comentar, mas o João Santos já disse tudo o que havia a dizer.

  3. João e Rui,
    As posições de Mira Amaral são conhecidas, mas eu dou-lhe razão em quase tudo o que disse…
    Quem não concorda terá que defender, entre outras coisas, aspectos como os seguintes:

    -O preço da electricidade tem que subir muito mais
    -As nossas empresas vão ter custos de contexto superiores, e parte delas fecharem
    -Vamos continuar a importar dos países que mais poluem, e são os verdadeiros responsáveis pela poluição mundial
    -Os consumidores vão ter uma subida de preços significativa
    -Que este é certamente um dos Governos menos liberal neste domínio, desde o 25 de Abril

    Obviamente, no meio disto tudo, quem não sabe fazer as contas, ou não as quer fazer, é o Ministro Jorge Moreira da Silva. Que soube embelezar o pacote, dizendo que é “Verde”… Ele lá vai aproximando as contas à realidade, mas é porque tem sido obrigado…

    O problema disto tudo resume-se ao seguinte: o Governo continua a não cortar nos custos, a poupar, como todos nós, mas sim a aumentar os impostos e taxas, para continuar a gastar com fartura! Isso é que é a realidade…

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