Bi-horário justifica-se cada vez menos

As tarifas bi-horárias têm uma longa história em Portugal. Segundo pudemos determinar, remonta pelo menos à Portaria nº 31-A/77. Já nessa Portaria se refere que “promovendo um bom aproveitamento dos recursos em energia e equipamento, associam-se os consumidores nas economias que eventualmente proporcionam, quando transferem os seus consumos para as horas de vazio ou aceitam desligar certos receptores nas horas de ponta.”.

Mais recentemente, segundo a Quercus, “as tarifas bi-horária e tri-horária pretendem suavizar os picos de consumo e aumentar o consumo no período nocturno”. Estas tarifas visam incentivar os consumidores a deslocarem parte do seu consumo para os períodos de menor consumo, até porque, ainda segundo a Quercus, “é durante a noite que se verifica, de longe, uma maior fracção de produção renovável, nomeadamente de origem eólica, que seria importante aproveitar”.

Entretanto, nós os consumidores aprendemos a transferir os nossos consumos para as horas de vazio, ou até aceitamos a desligar equipamentos eléctricos nas horas de ponta, alinhando-nos com os objetivos há mais de três décadas definidos. Muitos de nós investimos em equipamentos que nos ajudam nessa tarefa, sejam programadores, bombas de calor, ou outros muitos equipamentos que já incorporam a possibilidade de programar o consumo de electricidade nos momentos de menor procura. Até na justificação da venda de carros eléctricos foi utilizada…

Acontece ainda que a Directiva 2009/72/CE estabelece que “os Estados-Membros devem assegurar a implementação de sistemas de contadores inteligentes, os quais devem permitir a participação activa dos consumidores no mercado de comercialização de electricidade”. A mesma Directiva estabelece ainda que “pelo menos 80 % dos consumidores devem ser equipados com sistemas de contadores inteligentes até 2020”.

Todavia, o que se constata pela evolução das tarifas, é uma estratégia distinta. Utilizando as fórmulas que evidenciam se o bi-horário compensa, fomos verificar como tem sido a evolução da percentagem de consumo em vazio, que justifique a tarifa bi-horária. Para simplificação, consideramos apenas as tarifas desde início de 2010, quando os valores cobrados pela potência dos contadores se tornou idêntica entre a tarifa simples e o bi-horário.

O que se constata na tabela e imagem abaixo é desolador! Em 2010, bastava que 15% do consumo se verificasse no horário de vazio, para que o bi-horário se justificasse. Em 2011, essa percentagem subiu para cerca de 18%, e no ano seguinte para 22%. As tarifas reguladas do início deste ano exigem que se verifique 30% do consumo em vazio, para que o bi-horário se justifique, conforme já havíamos calculado neste artigo.

Estes cálculos comprovam um enigma que me perseguia há uns tempos. Sempre que fazia contas aos benefícios aos custos do bi-horário, eles pareciam cada vez menores… E são!

Tarifário Tarifa Simples
(s)
Tarifa Fora Vazio
(f)
Tarifa Vazio
(v)
x/y=
(s-f)/(v-s)
% em Vazio a partir do qual compensa bi-horário
Mercado Regulado 2010 0.1285 € 0.1382 € 0.0742 € 0.1786 15.16
Mercado Regulado 2011 0.1326 € 0.1448 € 0.0778 € 0.2226 18.21
Mercado Regulado 2012 0.1393 € 0.1551 € 0.0833 € 0.2821 22.01
EDP Verde Mai2012 0.1393 € 0.1551 € 0.0833 € 0.2821 22.01
EDP Verde Jan2013 = 6.90 kVA 0.1393 € 0.1551 € 0.0833 € 0.2821 22.01
EDP Verde Jan2013 >= 6.90 kVA 0.1424 € 0.1582 € 0.0864 € 0.2821 22.01
EDP Casa Mai2012 0.1365 € 0.1551 € 0.0833 € 0.3496 25.91
EDP Negócios Mai2012 0.1365 € 0.1551 € 0.0833 € 0.3496 25.91
EDP Casa Jan2013 <= 6.90 kVA 0.1365 € 0.1551 € 0.0833 € 0.3496 25.91
EDP Casa Jan2013 > 6.90 kVA 0.1396 € 0.1582 € 0.0864 € 0.3496 25.91
Mercado Regulado Jan2013 <= 6.90 kVA 0.1405 € 0.1641 € 0.087 € 0.4411 30.61
GALP ON Plano Confort Jan2013 <= 6.90 kVA 0.1377 € 0.1608 € 0.0853 € 0.4408 30.60
Mercado Regulado Jan2013 > 6.90 kVA 0.1418 € 0.1674 € 0.0878 € 0.4741 32.16
GALP ON Plano Confort Jan2013 > 6.90 kVA 0.139 € 0.1641 € 0.086 € 0.4736 32.14
Bi-horário justifica-se cada vez menos

Bi-horário justifica-se cada vez menos

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  1. Muito interessante esta análise. O objetivo é obrigarem os consumidores a passarem para a tarifa simples.

    Gostaria de salientar que atualmente o preço da potência contratada no mercado liberalizado difere entre tarifas. A potência contratada em tarifa simples tem um preço mais baixo em comparação com as mesmas potências para bihorário (por exemplo).

    Seria interessante incluir nestes rácios e percentagens este valor.

    Abraço

  2. Manuel,
    Fui ver e confirmar aquilo que eu ainda não tinha reparado: que o EDP Casa realmente difere em termos de potência entre o simples e o bi-horário! Nos outros parece que não há ainda diferença, e no regulado também não, pelo que representa um regresso ao passado…
    Ou seja, mais uma machadada no bi-horário!

  3. Excelente artigo.
    Realmente o bi-horário passou a ser moda,no entanto, a lei do ruído não se cumpre uma vez que as pessoas colocam as máquinas de lavar a funcionar depois das 24H, Ou seja, o período noturno que seria para descansar depois de um dia de trabalho, deixa de fazer sentido, isto porque uma vez mais, os grandes grupos económicos sobrepõem-se à leis existentes.

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